Afinal, pra que queremos ler mentes se podemos ler os olhos?
* Editoria: Comportamento/Cultura
Texto Publicado no Jornal Dia@Dia
Março/2010.
Ahh como eu queria...
Como eu queria poder ler a mente das pessoas, saber o que se passa em suas cabeças. O que pensam de mim, do que elas gostam, o que querem fazer.
Não há dúvidas que tudo ficaria mais fácil. Não haveria aborrecimentos, mal-entendidos, confusões, brigas. Já estou cansado de tudo isso.
Seria tudo perfeito. Eu poderia raciocinar com tranqüilidade e decidir melhor o que fazer em cada situação.
Veja que legal: Posso saber exatamente o que você está pensando agora! E não adianta tentar mudar o pensamento, pois eu vou saber mesmo assim. Te peguei....haha! Bacana, legal. Mas logo acaba a graça...
Isto significa que nunca vou ser surpreendido, jamais vou ficar emocionado com um presente, pois já vou saber o conteúdo do pacote, não vou ter mais o que “ler nas entrelinhas”, não vou mais experimentar o tempero da expectativa.
E que tempero bom! Como é gostoso ficar na expectativa, sentir a mão suar e a espinha gelar.
É o lado doce da dúvida, da espera, da ansiedade.
Mas é preciso ter cuidado com esse tempero, para a receita não desandar. Expectativa demais é sinônimo de decepção, sempre, em todo lugar.
E ao contrário do que se pensa, a culpa pela frustração não está naquele que não atendeu às expectativas, mas sim, naquele que a depositou no outro. Em excesso.
Não que isso seja feito por mal, pelo contrário. Na maioria das vezes isto só acontece porque se gosta e confia muito no outro. E então, exige-se além da conta.
Aí se fica à espera de uma determinada atitude, palavra ou reação que não vem... Que decepção!
Ah, como eu queria saber o que estava se passando com você naquele momento...
Pensando bem, melhor não. A melhor expectativa é a espera para se fazer as pazes, olhando nos olhos e lendo dentro deles o que a boca não consegue dizer.
Afinal, pra quê queremos ler mentes, se podemos ler os olhos? Não são eles as janelas da alma?
Então apenas olhe nos meus olhos...